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domingo, 6 de março de 2011

Meu Sonho

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volte
e que vens, se o tempo voltar.

 Cecília Meireles

quinta-feira, 3 de março de 2011

"Motivo"

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre 
Nem sou triste:
Sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, 
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico, 
Se permaneço ou me desfaço, 
— não sei, não sei. 
Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. 
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

(Cecília Meireles)

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